A pesquisa foi conduzida a partir de uma metodologia de arqueologia urbana digital, que consiste na identificação e análise de vestígios materiais de práticas culturais e religiosas no espaço urbano utilizando recursos de mapeamento digital. A partir do Google Maps, foram localizadas rotatórias e cruzamentos — espaços tradicionalmente associados a rituais afro-brasileiros — e, com o uso do Street View, procedeu-se a uma observação detalhada das margens, canteiros e áreas de drenagem. Nessa leitura visual remota, foram identificados fragmentos de alguidar, flores e outros elementos reconhecíveis como vestígios de oferendas (ebós), compondo uma materialidade sagrada afro-brasileira presente na paisagem de Belém. A metodologia integra práticas de arqueologia visual, cartografia cultural e etnografia digital, permitindo o reconhecimento do patrimônio imaterial com expressão material por meio de ferramentas acessíveis e não invasivas, respeitando os valores espirituais e comunitários desses espaços.
A questão da água em nossa Mairi é tão importante que estamos planejando uma nova aba temática com esse nome "ÁGUAS DE MAIRI" enquanto isso é feito vamos reproduzir uma importante reportagem sobre o tema
💧 Preservação de Nascente no Parque do Utinga Garante Água de Graça para a População de Belém
Por Dilson Pimentel – 17 de março de 2024
Em meio ao crescimento desordenado de Belém, olhos d’água e nascentes ainda resistem em alguns pontos da cidade, oferecendo à população uma fonte gratuita e natural de água. No Parque Estadual do Utinga, uma nascente comprovadamente mineral garante água limpa e acessível para centenas de moradores.
Água mineral de graça e acessível
Durante o dia, é comum ver pessoas chegando de bicicleta ao Parque, carregando garrafões para encher com a água cristalina da nascente. O acesso é livre e gratuito, e muitos utilizam a água tanto para o consumo próprio quanto para revenda a preço popular — cerca de R$ 5 por garrafão, metade do valor comercial.
O vigilante José Henrique Silva, 57 anos, frequenta o local há duas décadas:
“A água, por si só, já é uma bênção. Nosso corpo é formado por 70% de água. Você pode até ficar sem alimento, mas sem água ninguém vive.”
Morador do Entroncamento, José Henrique vai de bicicleta ao parque até três vezes por semana. Quando sobra água, ele distribui para vizinhos em troca de uma ajuda de custo simbólica.
Acesso e orientação
Segundo o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-Bio), responsável pela gestão do Parque Estadual do Utinga, o acesso à bica é permitido de segunda a sexta, das 6h às 14h, e aos finais de semana e feriados, das 8h às 12h.
O órgão ressalta que a água vem diretamente do lençol freático, e orienta os visitantes a manter o local limpo e preservado.
O valor das nascentes urbanas
Além do Utinga, há quatro nascentes registradas no Residencial Bosque Felizcidade, no bairro do Mangueirão, entre elas a Nascente do Arancuã, sinalizada com uma placa que pede: “Preserve a nossa fonte de água viva.”
O mecânico Ismael Pinto, 70 anos, conta que utiliza a água gratuitamente para beber e cozinhar:
“Isso aqui é uma dádiva de Deus. Quando a gente não tem dinheiro pra comprar água, vem aqui e tem água disponível. Um garrafão custa no mínimo R$ 10.”
Já o microempreendedor Eduardo Cravo, morador há 20 anos, destaca a importância dessas fontes:
“Quando o sistema de abastecimento falha, recorremos à nascente. É uma água potável, de muita qualidade. O fundamental é preservar o entorno, evitar produtos químicos e manter as árvores para que as nascentes não morram.”
Desafio da urbanização e importância do mapeamento
A geóloga Aline Maria Meiguins de Lima, professora do Instituto de Geociências da UFPA, explica que a urbanização intensa de Belém ameaça a sobrevivência dessas nascentes, que dependem da conservação de áreas verdes ao redor:
“A presença de nascentes em áreas urbanas parece impossível, mas elas trazem enorme benefício ambiental e social, ajudando a dissipar alagamentos e oferecendo lazer e qualidade de vida.”
Ela alerta que as nascentes urbanas podem desaparecer, devido ao despejo de lixo e efluentes. Segundo Aline, a melhor estratégia é mapear o que ainda existe e criar planos de revitalização das bacias hidrográficas, garantindo “corredores verdes” e integrando essa política ao plano diretor da cidade e às ações de saneamento básico.
Benefícios da preservação
As nascentes, quando mantidas vivas, proporcionam múltiplos benefícios:
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Abastecimento de água potável para comunidades;
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Controle de cheias e marés;
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Espaços verdes e de lazer;
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Recarga de aquíferos subterrâneos;
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Segurança hídrica e equilíbrio ambiental.
“Investir em uma cidade que respeita suas águas é investir em convivência, não em conflito”, conclui a geóloga.
Água para a paz
A Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu, em 22 de março de 1992 — durante a Eco-92, no Rio de Janeiro — o Dia Mundial da Água, celebrado anualmente. Em 2024, o tema é “Água para a Paz”, reforçando a importância do acesso justo e sustentável aos recursos hídricos como caminho para o equilíbrio social e ambiental.
🌎 Conexão com o Projeto Mairi
O Mairi — Ancestralidade Digital integra esse debate ao propor o mapeamento colaborativo das nascentes e águas vivas de Belém, conectando tecnologia livre, saberes locais e educação ambiental.
Acesse o mapa interativo:
👉 mairi.lablivre.tec.br/osm-mapa.html
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MAIRI – Ancestralidade Digital e os Sentidos da Terra
O Projeto Mairi nasce da confluência entre ancestralidade e tecnologia, entre o saber tradicional e as linguagens digitais contemporâneas. Mais do que um projeto, Mairi é uma plataforma viva de reconexão entre o humano, a natureza e a memória, onde o digital deixa de ser uma ferramenta fria e passa a ser uma extensão sensível da floresta, da cultura e dos afetos amazônicos.
Mairi — palavra de origem tupi que remete à casa, à aldeia, ao território — propõe uma Ancestralidade Digital, conceito que compreende que o futuro da tecnologia na Amazônia só pode existir se enraizado em suas histórias, rituais, mitos e saberes tradicionais. Assim, o projeto faz dialogar arte, ciência e espiritualidade, transformando sensores, dados e códigos em linguagem poética e política.
Tecnologia e Sensibilidade Amazônica
O caráter inovador do Mairi está em seu uso de tecnologias livres e abertas — sensores ambientais criados em software e hardware livre, conectados à internet e a aplicativos web progressivos (PWA) capazes de funcionar mesmo offline. Esses sensores — como o sensor solar híbrido e o sensor de poluição sonora — não servem apenas para medir índices físicos do ambiente: eles traduzem os fluxos da natureza em experiências sensoriais e culturais.
Ao captar a variação da luz solar e transformá-la em som, como no experimento “Tambores do Sol”, ou ao medir a intensidade do ruído urbano e exibi-la num mapa colaborativo de poluição sonora, o projeto reencanta o olhar sobre o território. Cada leitura é também um ato de escuta do planeta, um gesto de tradução dos ritmos da Terra em dados compreensíveis e compartilháveis.
Ancestralidade e Meio Ambiente como Linguagem Digital
Em Mairi, ancestralidade e meio ambiente não são temas — são presenças. As narrativas da floresta, os cantos dos pássaros, as lendas das mulheres e homens da Amazônia aparecem como camadas simbólicas de um sistema digital que aprende a ouvir o território.
Essa fusão entre ancestralidade e tecnologia cria uma pedagogia do sensível, onde cada oficina, exibição ou aplicação interativa se torna um espaço de aprendizagem comunitária, arte e ciência. Mairi convida as pessoas a perceberem que a inteligência coletiva da floresta é também uma forma de tecnologia — uma tecnologia da vida, do cuidado e da relação.
Inovação, Cultura e Futuro Amazônico
Ao empregar ferramentas de código aberto, mapas colaborativos e realidade aumentada, o projeto também propõe uma nova forma de fazer ciência e cultura na Amazônia: horizontal, acessível e decolonial.
Cada dado coletado, cada experiência sensorial compartilhada, é um fragmento do território sendo narrado pelos próprios habitantes, e não por dispositivos externos ou corporativos.
Mairi é, assim, uma ação de soberania digital e ecológica — um modo amazônico de produzir conhecimento, proteger a floresta e afirmar a vida. É ciência feita com encantamento, tecnologia com pertencimento, e arte como resistência.
